sábado, 5 de setembro de 2009

Eleições (1)

Está a chegar a hora de voltarmos a escolher alguém que nos governe e uma vez mais a tarefa parece ser faraónica.

Não sei se a nossa dificuldade em identificar um quadrado onde possamos desenhar um simples X se deve ao facto de sermos cada vez mais exigentes, fruto da nossa evolução democrática, ou da descrença que os candidatos nos suscitam, por nos quererem sujeitar ao exercício de pretenderem que sigamos cenouras que todos sabemos não sermos capazes de as comer.

Ao nível nacional temos assistido a um digladiar de argumentos que já cansa não só quem os houve, mas por certo também quem os promove. Se não vejamos:

- Todos conhecem o estado caótico das finanças do País e sabem que Portugal já não cunhando moeda e já lhe restando pouco ouro, depende em exclusivo dos outros para poder “curar” tal doença.
Será que a saída da crise não passa, também, por os portugueses terem de produzir mais do que têm produzido? Será que esse acréscimo de produção não aumentaria o PIB nacional? E o aumento do PIB não poderia promover uma menor dependência aos outros?
Porque será, então, que nenhum promete pôr os Portugueses a trabalhar e produzir mais?
É simples. Não dá votos.


- Todos sabem que o País tem compromissos que é obrigado a respeitar. Qualquer que seja o eleito não consegue fugir a tais compromissos. E quando esses compromissos assentam em Planos Plurianuais há muito definidos, muito menos é possível fugir. Muitas vezes o que sobra para se poderem realizar algumas “aventuras” é tão pouco que mal dá para se poder implementar uma medida mais audaciosa.
E se todos sabem, porque é que prometem a Lua quando sabem que não existe forma de a alcançar? E quando percebem que ninguém os pode levar a sério, porque a sede de poder assim os obriga, as suas estratégias passam para numa primeira fase por denegrir as propostas dos outros, desdenhando-as, e, numa segunda fase, fazendo desfilar numa passerelle pública os vícios e erros dos seus adversários como se a virtude só morasse num lado. Porque o fazem?
É simples. Consegue-se mais votos com o demérito do nosso adversário do que propriamente com o nosso próprio mérito. Será que não é por isso que é comum ouvir-se que não se ganham eleições, mas sim, que se perdem eleições?

Estou confuso sobre o que fazer do meu voto no dia 27 de Setembro!!!

Ao nível local, pouco há a dizer. A tal mudança que se afirma ser capaz de quebrar o ciclo da governação em exercício de modo que os próximos quatros anos não sejam mais do mesmo dos dezasseis que já lá vão (conforme os seus autores não se cansam de afirmar), não passa de um mero exercício de retórica.

Quando nos cinco “pilares” estratégicos não existe uma única medida estruturante capaz de inverter o actual rumo que o Concelho do Sardoal tem tomado ao longos destes últimos anos, em que um dos “pilares” por ausência de uma “sapata” que o suporte, só por si, "pode tirar o Concelho da miséria e pô-lo a pedir"...
Quando os "pilares" de cariz social não passam de "simples cópias" do apoio social que o governo local instalado tem vindo a cultivar ao longo destes anos...
Quando um desses pilares trata a construção de duas ou três rotundas que nunca ninguém deu pela sua falta até há alguns meses...
Será que tal projecto de mudança não é ele próprio um projecto de continuidade, onde a única coisa que muda são os protagonistas? Mal, por mal...


(Continuo para a semana!)

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Álbum de Recordações

Concluo hoje, e por ora, um conjunto de textos sobre uma terra muito especial que educou a criança que fui, moldou fortemente o homem que sou e que Mia Couto tão bem sabe cantar: Moçambique.

Recordo…
As viagens entre Marromeu e Luabo ao longo do Zambeze no 1º andar do Mezingo ou do Marruma. O Mezingo e o Marruma pareciam irmãos gémeos dos barcos que sulcavam as águas do Mississipi nos finais do século XIX e primeira metade do século XX. As suas grandes rodas à popa faziam um barulho muito peculiar ao girarem e mergulharem as suas pás nas águas escuras do rio, movendo o barco e os batelões a si atrelados quer a bordo, quer a estibordo. Quando os barcos desciam o Zambeze, os batelões carregados de açúcar das fábricas da Sena Sugar Estates, quase que mergulhavam integralmente no rio (o seu destino era o porto de Chinde localizado na foz do Zambeze). Como me entusiasmava vendo os crocodilos nas margens do rio mergulharem nas águas à passagem dos barcos e buscando nas ilhas de plantas marinhas a cabeça de um hipopótamo!

Recordo…
A magia da noite no interior da floresta do bairro da Lusalite, no Dondo e como não tinha medo de me aventurar no seu interior guiando-me apenas através das “luzes” dos pirilampos, que inundavam as suas clareiras. Hoje arrepio-me só de pensar quão loucos éramos ao aventurarmo-nos num espaço minado de cobras, macacos e outros animais selvagens, sem levarmos connosco uma lanterna e muito menos um canivete. Os sons que a floresta produzia eram um bálsamo para os nossos medos!

Recordo…
A jibóia que matei com uma pressão de ar depois desta ter invadido a capoeira das galinhas da minha mãe, ter engolido dois frangos e um peru e ter ficado encurralada na casota onde aqueles animais eram guardados durante a noite. As mãos e os pés tremiam-me tanto que só encostando a pressão de ar na ombreira da porta é que conseguia apontar e disparar com algum rigor para aquele enorme corpo que se localizava a dois metros de mim. O coração não parava de bater, à medida que ia disparando para aquela enorme massa enrolada numa viga de madeira da cobertura. O pior foi no final, quando ela caiu no chão e levantou a cabeça para mim. O coração quase que me saltou da boca e dei por ventura o maior salto da minha vida. No fim, ganhou o mais forte e o resultado saldou-se por uma linda pele de uma jibóia com cerca de três metros e meio.

Recordo…
As águas quentes, límpidas e transparentes de algumas praias Moçambicanas, especialmente a Praia de Fernão Veloso e das Chocas. Os mergulhos nas águas da piscina na ilha de Moçambique que as marés-cheias se incumbiam de substituir. A profusão de peixes na linha de água junto à areia das praias.

Recordo…
A amizade entre as gentes que habitavam tais terras. Fossem brancos ou pretos, as amizades estabelecidas eram perenes. A terra parecia que produzia uma “cola especial”. Uma vez amigo, amigo para sempre. Os erros eram facilmente desculpados e era dispensada a busca da razão que sustentava as amizades. Era-se amigo e pronto.

Recordo…
Como aprendi a contar até 10 em “Chissena”, muito antes de aprender outras coisas mais julgadas, por ventura, mais elementares: “posse”; “pir”; “tato”; “manai”; “chano”; “tantato”; “pnome”; “ser”; “femba”; “cume”.

Record…
Tanto que recordo!...

Post-scriptum: Os tempos que aí vêm fazem com que eu suspenda as minhas recordações Moçambicanas do meu passado e derive a minha atenção e os meus pensamentos para o meu presente. Já se agitam as águas da política nacional e local. Pese o facto de não fazer parte da tripulação de qualquer dos barcos que irão sulcar tais águas, a Constituição da Republica Portuguesa consagra-me direitos que entendo utilizar. E assim, nos próximos tempos irei aqui expressar os meus pensamentos sobre as eleições legislativas do meu País e autárquicas do meu Concelho.

sábado, 22 de agosto de 2009

A Festa da Morte

Se há coisas que me surpreendem é o facto de, depois de termos vivido já alguns “anitos” sermos capazes de recordar episódios da nossa vida que aconteceram há algumas dezenas de anos, com uma nitidez que chega a ser surpreendente.

E o surpreendente é que esses episódios são guardados na nossa memória sem a “nossa autorização”. É como se dentro do nosso cérebro habitasse um bibliotecário com poder discricionário para poder guardar ou eliminar a informação que os nossos sentidos vão captando ao longo do caminho da vida, sem que para tal pudessemos intervir.

Na biblioteca da minha memória são muitos os episódios da minha vida que tenho guardado. Se existem muitos que o tempo já se encarregou de “eliminar”, outros há que se tornaram “imunes” à acção do tempo. E essa “imunidade” é de tal modo activa que mesmo passados muitos anos após terem acontecido, quando “olho” para o “álbum da minha memória”, a sua intemporalidade faz como se tal vivência tivesse sido “guardada” no dia de ontem.

É assim que no meio de “tamanha desarrumação” consigo retirar alguns episódios que vivi durante as minhas férias escolares do ano lectivo de 1963/64.

O meu pai era responsável por uma “cantina” localizada no mato, a cerca de 10 quilómetros de Marromeu, uma Vila localizada na margem esquerda do Rio Zambeze e a Norte do Distrito de Manica e Sofala. A família decidiu que seria ali que seriam passadas as férias grandes escolares.

Recordo muito bem a viagem entre Marromeu e a “cantina”: como para a carrinha Bedford (de cor verde-escuro e de caixa aberta) trabalhar foi preciso “enfiar-se” uma longa manivela na frente do motor e rodar-se com alguma energia; como era sinuoso, estreito e esburacado o caminho de terra batida; como eu e os meus irmãos, atrás e de pé na caixa aberta, nos agarrávamos ao topo da cabine da carrinha e baixávamos as cabeças para nos furtarmos às investidas das canas que existiam ao longo da berma e pendiam para o caminho; como jubilávamos quando o caminho era melhor e permitia ao meu pai atingir o limite máximo de velocidade que a carrinha dava que era os 45 quilómetros por hora; como perscrutávamos no horizonte a existência de cobras e outros animais selvagens.

Recordo muito bem a cantina onde o meu pai vendia à população negra da área (não havia qualquer população branca num raio de 10 quilómetros) todo o tipo de produtos desde vinho a farinha. A cantina pertencia a um tio do meu pai e este era um simples empregado daquele.

Recordo como o meu pai se indignava, resmungando entre dentes, sempre que tinha de adicionar água ao vinho para que a receita fosse maior cumprindo ordens do seu tio e patrão. Homem de carácter forte e profundo respeitador do espaço dos outros, independentemente da sua raça ou credo, foi com alguma naturalidade que o meu pai começou a fazer alguns amigos entre os seus fregueses de raça negra. De entre eles destacava-se o régulo da tribo localizada na área.

E quando os pais são amigos existe toda a probabilidade dos filhos também o serem.

Entre nós e os filhos do régulo (de quem já não lembro os seus nomes) cresceu uma cumplicidade de tal ordem que onde estavam eles, estávamos nós e vice-versa. Os seus “carrinhos” feitos de colmos de canas eram claramente superiores aos nossos de lata. Eles brincavam com os nossos e nós com os deles. Como gostava de “conduzir” os seus carrinhos! Eram autênticas obras-primas. Retirada a casca da cana, com o colmo fazia-se as carroçarias dos camiões, jeeps, carros, etc. A ligação entre os pedaços de colmo era feita à custa de pequenos palitos de cana. As caricas das garrafas dos refrigerantes eram os faróis. As rodas eram feitas com arames e tinham um “sistema de molas” que me deliciava sempre que o carrinho circulava num carreiro com depressões. O melhor de tudo era o facto de, para brincarmos, não termos de nos sentar ou ajoelhar no chão. Fazíamo-lo de pé. Uma longa cana que ligava o volante (em arame) ao carrinho permitia-nos “conduzi-lo” sempre em pé.

Um dia recebemos um convite muito especial. O régulo convidou-nos para uma festa que iria ter lugar à noite.

Através de estreitos caminhos, e com o recurso a lanternas, chegámos ao interior do agrupamento de palhotas onde o régulo, família e demais elementos da tribo viviam. Encaminhados para uma clareira iluminada por grandes fogueiras tive a oportunidade de assistir a um evento que nunca mais esqueci: Uma festa em memória de alguém que acabara de falecer.

Recordo como alguns homens envergando peles de macaco e imitando o andar, gestos e urros dos símios provocavam um corpo que jazia no centro da clareira (seria o morto ou seria alguém no seu lugar?), tudo isto acompanhado ao som dos batuques e sons guturais de homens e mulheres que se espalhavam em torno da clareira.

Na minha inocência aquilo nada me dizia, embora infundisse um enorme respeito acompanhado por um tremor que nos percorria o corpo. Durante algum tempo duraram as "macacadas" até que deu entrada, no recinto, alguém com uma grande pele de leão que o cobria totalmente. Os homens-macaco com urros muito fortes, quais gritos de desespero, de imediato deixaram de provocar o corpo que jazia imóvel no chão, para abandonarem a clareira de uma forma desordenada. O homem-leão chegou junto do corpo, cobriu-o com a sua enorme pele e um enorme silêncio se fez. Alguns minutos depois, o homem-leão começou a deslocar-se para fora da clareira. À medida que se deslocava, o corpo oculto debaixo da sua enorme pele acompanhava o seu movimento. O morto seria um figurante ou debaixo da capa estava alguém que ia arrastando o morto para fora da clareira? Nunca soube.

Quando o homem-leão saiu da clareira “levando” consigo o “morto”, deu-se início a uma enorme festa, onde não faltavam os batuques, a dança e a “nipa” (aguardente de cana sacarina).

Noite dentro, regressámos a casa. Na minha cama e durante o resto daquela noite e na noite seguinte os ecos dos batuques que a selva africana distribuiu não permitiram que eu fechasse os olhos. Como é que alguém era capaz de festejar perante a morte? O que significavam a presença dos macacos e do leão?

Hoje passados que são 45 anos ainda não consegui encontrar as respostas àquelas perguntas. Todavia não deixa de ser curioso o facto de alguém ser capaz de não festejar um nascimento e de festejar uma morte, contrariamente ao que estamos habituados.


Pensando bem:
- Será que o nascimento não é o princípio da dor e a morte o seu fim?
- Será que não é a intensidade da dor, física ou mental, que determina o grau de felicidade do ser humano?
- Será que os macacos significavam as tentações da vida que todos nós permanentemente estamos sujeitos e o leão a impossibilidade de podermos escapar à força de um elemento superior, muitas vezes identificado como destino?
- Será que…?


Tantas são as perguntas que podem ser formuladas sobre a vida e a morte, para as quais não existem respostas matemáticas!

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Uma Pausa Necessária

Se uma imagem vale mais do que mil palavras, penso que o meu tema de hoje é o mais longo que aqui já escrevi.






sábado, 8 de agosto de 2009

Uma pescaria em África (2)

A época das chuvas do ano de 1969 já decorria havia algumas semanas.

A minha casa localizava-se a 30 quilómetros da cidade da Beira, em frente da Fábrica da Lusalite no Dondo e o acesso à mesma processava-se obrigatoriamente através da estrada que ligava a Beira à Rodésia (hoje Zimbabué). Um pequeno caminho de terra batida com uns 15 metros de comprimento era o que separava a Estrada da pequena quinta onde vivíamos.

Desde há algum tempo que vinha observando alguns charcos de águas das chuvas que se estendiam desde o início da valeta direita da Estrada Nacional e a linha de Caminho-de-ferro que se alinhava paralelo à estrada e que dela não distava mais do que 15 a 20 metros. Em virtude dos solos já se encontrarem totalmente saturados de água, levava a que esses charcos não secassem e se apresentassem cobertos por um manto de plantas aquáticas onde despontavam nenúfares com flores deslumbrantes.

Debaixo das plantas de folha fina circular podiam-se observar pequenos cardumes de peixes multicolores que não apresentariam um comprimento superior a 3 centímetros. Já havia tentado colocá-los no meu aquário mas, por infelicidade minha, não haviam sobrevivido mais do que 48 horas.

Um dia, estava eu na berma da estrada a observar um dos charcos, quando vejo um peixe com um comprimento superior e diferente dos demais: o seu comprimento rondaria os 10 centímetros e a sua cor era um cinza claro. Durante algum tempo não me mexi para não o assustar mas a passagem de um comboio a carvão dos CFM (Caminhos de Ferro de Moçambique) veio estragar a minha observação porque o peixe desde logo se escapou ao meu olhar. Pudera com o barulho que a máquina a vapor fazia!

Dei por mim a pensar que, se aquele charco tinha aquele peixe, possivelmente haveria mais.

Vou a casa, arranjo uma cana de bambu, ato numa das pontas da cana um fio de nylon, aí com um metro e meio de comprimento, e coloco, toscamente, um anzol no outro extremo do fio. Debaixo de uma laranjeira do pomar apanho algumas minhocas e dirijo-me à estrada. Estava a chegar ao meu portão, quando o meu pai me perguntou:

- Onde é que vais à pesca?

- Vou ali à valeta! (Respondi eu.)

- Com uma linha tão grossa e um anzol tão grande, não acredito que apanhes alguma coisa. Quando eu pescava em Portugal, no Rio Tejo, a linha era muito mais fina e o anzol muito pequeno, para que os peixes não os vissem. Caso contrário os peixes não tocavam no anzol. (Disse-me o meu pai.)

- Olha pai. Este é o fio mais fino que encontrei e este é o anzol mais pequeno que tenho. (Respondi eu, continuando o meu caminho para a valeta.)

- Boa sorte! (Disse-me o meu pai à laia de despedida, com um sorriso nos lábios).

Atravesso a estrada, chego-me junto da valeta, afasto com a ponta da cana as folhas de um nenúfar grande e … minhoca no anzol e… anzol na água.

O nosso criado António (que nós carinhosamente tratávamos por “António Maluco”) com um colmo de uma cana tinha-me arranjado uma espécie de bóia e ela era o alvo de todos os meus olhares.

Atrás de mim, a cerca de 3 a 4 metros, os carros e as pessoas passavam para cima e para baixo. Os meus sentidos estavam de tal modo concentrados naquela bóia que nem sequer percebia quem passava e o que diziam.

Ao fim de longos minutos sem ter sentido uma leve “picada” comecei a pensar nas palavras do meu pai. Ele, que havia sido distinguido havia alguns anos num jornal de Abrantes por ter apanhado um barbo muito grande no Rio Tejo junto a Abrantes, era seguramente um entendedor da matéria. A linha e o anzol deveriam ser grandes demais.

A dada altura, estava eu prestes a desistir quando vejo uma bolha de ar, vinda do interior do charco, rebentar junto à minha bóia. Alguns segundos depois… outra.

A bóia mexe-se e eu levanto a cana e sinto algo preso. Volto a puxar a cana e sinto que estou a arrastar alguma coisa. Já com os pés no alcatrão continuo a puxar e sinto-me rodeado por três ou quatros pretos que tal como eu só têm olhos para a ponta da linha.

Da água sai uma figura sinistra.

- É Dôe, menino! É Dôe!
– Diz alguém.

Uma espécie de peixe longilíneo, escuro, com cerca de 40 a 50 centímetros dava saltos na berma da estrada.

- Mata menino! Mata! – Diz outro.

- Matar para quê? Não está na água, não respira, vai morrer! – Respondi eu com o coração a bater de medo olhando para a “figura” que se contorcia.

É então que alguém pega num pau e começa a bater na cabeça do “peixe”.

À medida que o “peixe” ia "levando com o pau" eu ia percebendo que ele não iria ser meu manjar. Se o gosto por peixe já era pouco (e ainda o é), não me estava a ver a comer “aquilo”.

Pergunto então àquele que “liquidara” a criatura:

- Você gosta de dôe?

- Sim menino, gosta. A gente abre ele ao meio, seca ao sol com um pouco de “munho” (sal) e depois come com massa. – Respondeu-me o preto que eu não conhecia.

- Leva. É teu! – Disse eu todo orgulhoso do meu feito.

O preto espeta no peixe um pau afiado que lhe atravessa a cabeça, coloca-o ao ombro e aí vai ele em direcção ao Dondo.

Volto para casa e conto o meu feito. Como qualquer conto que trate uma pescaria julgo que ainda hoje, quer os meus pais quer os meus irmãos não acreditam na “criatura” que pesquei.

Post Script Um: Acrescentaria para concluir este episódio que faz parte da história da minha vida:

- A criatura que apanhei dá pelo nome científico de Lepidosiren Protopterus (fam. Protopteridae, África). Faço-vos um desafio: introduzam este nome no Google e façam uma pesquisa sobre o “tal peixe”.

- Moçambique foi (é e será sempre) uma terra muito especial para mim.

- Alguém será capaz de imaginar que numa valeta de uma estrada, que as águas das chuvas encheram, se possam desenvolver peixes em algumas semanas? Imaginem! É verdade!

- Como eu percebo o meu companheiro de escola que dá pelo nome de Mia Couto, que empunhando numa mão a pena de um poeta e na outra a mestria de um biólogo, tem vindo a divulgar ao mundo as riquezas de um fabuloso País!

- Bem Hajas MIA!

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Uma pescaria em África (1)

Comprometi-me no último artigo que hoje contaria uma história sobre uma pescaria em Moçambique, a qual poderia de alguma forma provar porque é que África é uma terra mística e porque é que todos aqueles que nela viveram não conseguem esquecê-la. Pese todo o querer que possuo para escrever tal história que vivi nas férias escolares do longínquo ano de 1969, as limitações temporais que tenho vivido nestes últimos dias, não me dão a margem de manobra que necessito para poder aqui contar essa história.

Fica para o próximo fim-de-semana. Até lá gostaria de deixar a seguinte questão:

- Será possível que numa valeta de uma estrada, que não tem qualquer ligação a um riacho ou lago, que durante 6 meses está completamente seca, com a queda das águas das chuvas em um mês apenas, essas valetas, então cheias de água, já possuem peixes sem que para tal tenha havido a intervenção do homem?

Levantando um pouco o véu, a história que pretendo contar trata uma pescaria numa valeta da Estrada Nacional que liga a Beira ao Zimbabué.

Post Script Um: Embora não seja grande a disponibilidade temporal não posso deixar passar a oportunidade de transcrever um texto que o meu amigo Carlos G. me enviou por e:mail, para além da conclusão sobre a fotografia que publiquei no meu último artigo.

LAPIDAR!!!

a) Vais ter relações sexuais? … O GOVERNO dá-te um preservativo.
b) Já tiveste? … O GOVERNO dá-te a pílula do dia seguinte.
c) Engravidaste? … O GOVERNO dá o aborto.
d) Tiveste um filho? … O GOVERNO dá o abono de família.
e) És viciado e não gostas de trabalhar? … O GOVERNO dá o Rendimento Mínimo Garantido.
f) Cabulaste e não fizeste o 9º ano ou o 12º ano? … O GOVERNO dá-to em 3 meses nas Novas Oportunidades.

Agora… Experimenta ESTUDAR, PRODUZIR e ANDAR NA LINHA para ver o que te acontece!!!... O GOVERNO dá-te uma bolsa de impostos para pagar as alíneas anteriores.


Que lindo Pinheiro de Natal!!!

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Mia Couto

Na semana passada ao perceber que o escritor Mia Couto iria à Biblioteca Municipal de Abrantes, no dia 21 de Julho, apresentar a sua última obra “Jesusalém”, entendi efectuar uma anotação na minha agenda para não faltar. O motivo era óbvio, para além do escritor retratar nas suas obras a vida das gentes e da terra Moçambicana (que me são muito caros), havíamos estudado juntos no mesmo Liceu.

Quando o escritor entrou no átrio da Biblioteca António Botto, pelas 21:30 já tinha à sua espera umas largas dezenas de pessoas que, de pé ou sentadas nas cadeiras disponíveis e nos degraus do hall, apresentavam alguma curiosidade e expectativa sobre a última obra do autor e o que ele tinha a dizer sobre ela.

Sentada ao meu lado a Gina perguntava-me que obra já havia lido de Mia Couto. Nenhuma, respondi eu. Foram várias as vezes que desfolhei alguns dos seus livros e li alguns parágrafos isolados, contudo ler uma obra completa, nunca o fizera. Porquê? Não sei. Falta de tempo. Falta de oportunidade. Nostalgia. Certo, certo é que realmente nunca lera qualquer obra completa daquele autor.

Iniciado o encontro, coube ao Director da Biblioteca abrir a sessão. Munindo-se de duas folhas A4, procedeu à leitura das notas que havia redigido as quais tratavam do “corpo e da alma” da obra que o escritor apresentava: “Jesusalém”. Para um leigo, como eu, das artes literárias, confesso terem sido várias as apreciações técnicas abordadas que não percebi. Não sendo o momento o mais indicado para interpelar o seu autor sobre o significado de algumas palavras por si utilizadas, não tive outra alternativa que não fosse remeter-me ao natural silêncio que esse momento impunha, não me esquecendo porém de bater as palmas no final da sua intervenção, acompanhando os outros (ou será que eram os outros que me acompanhavam?).

Chegada a vez do escritor, este, de uma forma simples e clara, fez uma abordagem da obra e do que esteve na génese da mesma. A mim, pelo menos, não me deixou “pendurado” nas dissertações literárias que entendeu proferir.

À medida que o diálogo se foi estabelecendo entre o escritor e a assistência, comecei a admirar a “verdade” daquele que um dia havia sido meu colega. Essa admiração ganhou relevo quando alguns dos assistentes fizeram conjecturas sobre a possibilidade do escritor ter utilizado na sua obra referências histórico-filosóficas, cantando-lhe loas por isso, enquanto que da parte do escritor a sua resposta a tais hipóteses era de que nunca havia pensado em tal e que a história e a escrita apareceram de uma forma espontânea. Mesmo quando o escritor foi elogiado pela sua audácia em criar novas palavras, com uma humildade do tamanho do mundo, rejeitou tal elogio afirmando que tais palavras derivavam da transposição das palavras dos dialectos locais moçambicanos para o português. Como eu o percebia! Se dúvidas houvessem sobre as tais palavras que o escritor rejeitava como sendo da sua autoria, recordei-me de uma anedota que contávamos em Moçambique:

- Um dia um “mezungo” (homem branco) andava à caça e perdeu-se no mato com o seu jipe. Viu um rapaz preto ao longe e gritou-lhe:
- “Ei Mwana, bueracuno (ó rapaz anda cá)!”
- “Diga Patrão!”
- “ O acampamento de caça é longe?”- perguntou o caçador.
- “ Chi, Patrão. A botear é longe, mas de carro é perto! - respondeu o rapaz preto de pronto.


Onde é que a palavra "botear" entra no acordo ortográfico?

Se intimamente já apresentava alguma vontade de o interpelar, ao perceber o humanismo e a grandeza daquele homem, que a terra moçambicana havia gerado e polido, não me coibi e pedi para intervir.

Sendo aceite o meu pedido, olhei para o escritor e disse:

- “ Gostava de lhe fazer um desafio e uma pergunta.”

- “O desafio é simples: Faça uma viagem no tempo e para muito longe daqui. Recue 40 anos e veja-se a entrar num portão de uma escola. Contorne o edifício da escola pela esquerda (a frente estava reservada aos professores e a direita às raparigas), passe atrás do ginásio dos rapazes, suba uns degraus, passe em frente da entrada para o ginásio vire à direita, suba mais dois lanços de escadas, não entre na 1ª sala, mas pode entrar na 2ª ou na 3ª sala, sente-se virado para o quadro e veja entrar o Fifas (lembram-se do tal professor de português que eu tive e que já aqui escrevi?)”.

- “A pergunta é esta: Nesta altura o clic de escritor já despontava?”


Bem à medida que eu ia falando, um brilhozinho nos seus olhos revelava uma alegria por reencontrar muito longe da sua terra (Moçambique) um antigo colega de liceu. O diálogo que a seguir estabelecemos foi como se estivéssemos apenas os dois naquele espaço. Sendo mais velho que ele alguns meses, não nos lembrámos se de facto chegámos a ser colegas de sala. Talvez sim. Talvez não. Que durante muitos anos partilhámos o mesmo espaço escolar. Inequivocamente.

No fim um forte abraço e uma dedicatória sua no seu primeiro romance TERRA SONÂMBULA que não resisto em partilhar (“Ao Fernando regressando ao Liceu onde fomos meninos. Mia Couto”) foi o que restou antes de cada um continuar a seguir o seu próprio caminho.

Este reencontro veio agitar o álbum de recordações do meu passado. De um passado rico e frutuoso que um dia pegou numa criança com 8 anos e a levou até aos 21 anos, moldando-a em muitos aspectos para o resto da sua vida.

Em homenagem ao Mia, durante algum tempo vou contar algumas histórias que vivi há 40 anos e que irão provar seguramente porque é que a terra africana é mística. O misticismo não radica apenas no exotismo das suas gentes, mas também na própria terra.

No próximo artigo: Uma pescaria.

...

Post Script um: Não concluo o meu artigo de hoje sem que antes aborde um assunto triste e partilhe uma curiosidade da natureza que tive a oportunidade de observar.

No passado sábado o Ilídio “do Pouchão”, como vulgarmente era tratado, “deixou-nos”. Nos últimos meses tive a oportunidade de o conhecer melhor, quando depois de um dia de trabalho bebíamos uma cervejinha na companhia de uns outros amigos e conversávamos sobre tudo e até sobre nada. Admirava a sua força interior e o seu espírito empresarial, característico do homem português, que já escasseia, e que vulgarmente designamos de “antes quebrar que torcer”.

Nesse dia fatídico, estávamos juntos com outros amigos na Lapa participando numa sardinhada na qual ele era um dos seus organizadores. Sabendo que eu não era (e não sou) fã de sardinhas foi o primeiro a prometer-me umas costeletas de javali e cumpriu.

Logo após o almoço uma sucessão de informações que davam conta que alguns seus trabalhadores se encontravam em perigo de vida, não hesitou em atirar às urtigas o pic-nic e ir em busca do salvamento dos seus homens.

A notícia que todos nós não queríamos ouvir veio algumas horas depois: - O Ilídio faleceu.

Durante longos minutos (fala-se em 40 minutos) pediu ajuda no fundo de um poço, do mesmo poço onde se encontravam os seus homens que felizmente se salvaram. Ninguém lhe respondeu.

- Ilídio. Onde quer que estejas, descansa em paz!

...

Curiosidades da natureza: O que será isto?