terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Cambridge 5 - As Análises da Água

Tal como a legislação Portuguesa obriga os distribuidores de água de abastecimento público a publicitarem os resultados das análises de águas efectuadas ao sistema de distribuição, determina também a legislação da Província do Ontário no Canadá que tais análises devam ser conhecidas do público consumidor.

Analisando a publicidade que é feita, por exemplo, pelo Município do Sardoal (Portugal) e pelo Município de Cambridge (Canadá), desde logo é possível observar algumas diferenças.

Passo a descrever algumas delas:

- O Município do Sardoal publicita os resultados trimestralmente, ao passo que o Município de Cambridge o faz anualmente.

- As análises efectuadas pelo Município do Sardoal avaliam muitos mais parâmetros químicos do que as análises realizadas pelo Município de Cambridge.

- A publicidade dos resultados das análises às águas de distribuição é muito mais rigorosa em Cambridge do que no Sardoal.

Exemplo 1: Tomando como referência o edital 39/2008 podemos constatar que das 24 análises efectuadas ao sistema, durante o 3º trimestre de 2008, para determinar a presença de Bactérias Coliformes, 3 delas apresentaram resultados que não cumpriam com a legislação ao apresentarem valores superiores a 100 unidades, quando o máximo é zero. No mesmo Edital é possível verificar-se que nas restantes análises realizadas ainda existem 6 parâmetros avaliados que, parcialmente, apresentam valores que não cumprem a Legislação Portuguesa. Tomando apenas como referência as causas e medidas correctivas relativas às 3 análises que detectaram a presença de Bactérias Coliformes pode ler-se no mesmo Edital: “Concentração de desinfectante residual insuficiente, tendo-se procedido à sua correcção. Contaminação devido a falta de manutenção e/ou limpeza da rede predial, não se procedeu a qualquer medida correctiva.”

Exemplo 2: Tomando como referência o último relatório publicado, em Março deste ano, pelo Município de Cambridge e que se reporta às análises da água realizadas durante o ano de 2007, podemos ver que das 1199 análises efectuadas para determinação da presença de Bactérias Coliformes, uma delas não cumpriu com o regulamento. E no mesmo relatório pode ler-se que a colheita da água analisada que não cumpria com o Regulamento havia tido lugar no dia 30 de Outubro de 2007, que o Laboratório que fez a análise da água informou o Município da inconformidade da análise no dia 31 de Outubro de 2007 e que as acções correctivas promovidas pelo Município foram as seguintes: descarga de toda a água presente no sistema de distribuição onde a colheita havia sido feita + desinfecção do sistema + repetição das análises quer a montante do sistema quer em terminais de saída da água (torneiras dos utilizadores).

São várias as informações que o Relatório publicitado pelo Município de Cambridge e relativo à qualidade da água domiciliária distribuída durante o ano de 2007, desde a quantidade mensal exacta em metros cúbicos até aos Regulamentos adoptados. De entre os vários regulamentos publicados existe um que me chamou à atenção e que passo a transcrever:

Regulamento 128/04 da Província do Ontário: Certificação dos Operadores de Distribuição de Água Domiciliária e Analistas da Qualidade da Água.

O Programa de Certificação de Operadores de distribuição de Água iniciou-se em 1987 enquanto Programa não obrigatório. Em 14 de Maio de 2004 foi publicado o Regulamento 128/04 que veio determinar os requisitos mínimos que os Operadores afectos á Distribuição de Água deveriam possuir para que pudessem ser certificados e com isso poderem desempenhar as suas funções. O Regulamento estabelece ainda os conteúdos dos cursos contínuos que tais operadores deverão ser sujeitos. De entre tais conteúdos deverão figurar os diferentes tipos de licenças, renovações e transferências; Responsabilidades que lhes estão afectas; elaboração de relatórios; para além de manuais de operacionalidade e manutenção de todo o sistema.

Como nota especial, este regulamento estipula que os novos Operadores devem completar um curso especializado de 16 meses, para que possam obter o Certificado de OIT (Treino de Operador). A partir de 1 de Agosto de 2005, estes Candidatos a Operadores devem completar um estudo individual de um manual, durante 40 horas, findos os quais deverão ser sujeitos a um exame escrito. Concluído com sucesso o exame, os candidatos a Operadores deverão frequentar um curso no Ridgetown College, durante 5 dias. Uma vez que todos estes passos tenham sido atingidos é emitida uma licença de Operador que terá uma validade de 3 anos, durante os quais os novos operadores tenham a possibilidade de reunir os requisitos necessários para obterem a Licença de Nível Um.


Comentário: Alguém me diz o que é necessário para se ser Operador de Sistemas de Abastecimento de Água Domiciliária em Portugal?


(No próximo artigo: Cambridge 6 – O Voluntariado.)

BOAS FESTAS – Que todos vós consigais receber em 2009 tudo aquilo que sonhais.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Cambridge 4 - A distribuição de água

No sítio do Município de Cambridge pode-se encontrar no sítio dos Transportes e Obras Públicas: “Viva a sua Comunidade – Água Potável – Perguntas mais Frequentes”.

Das perguntas e respostas que ali se encontram passo a transcrever algumas delas:

Pergunta: A tubagem que transporta a água potável desde as Estações de Tratamento até às nossas casas encontra-se limpa?

Resposta: Sim. Porém de uma forma natural, alguns dos constituintes presentes na água (por exemplo o ferro) podem-se depositar no interior da rede de tubagem. As equipas de manutenção do Município têm como missão periodicamente proceder a descargas e limpezas das tubagens de modo que o interior dos tubos possa ser o mais limpo possível. As descargas são realizadas abrindo-se, para o efeito, as bocas-de-incêndio e deixando-se a água fluir durante algum tempo para o interior da rede pública de recolha das águas pluviais. Caso tais descargas não sejam realizadas, os materiais tal como o ferro juntam-se no interior das tubagens e saem através das torneiras das casas.

Outra forma de limpeza das tubagens é forçar a entrada na rede de uma esponja fazendo-a deslocar ao longo da tubagem através da pressão da água. A deslocação da esponja permite limpar as paredes interiores da tubagem. Com a abertura de uma boca-de-incêndio procede-se à recolha da esponja, ao mesmo tempo que se procede à descarga de toda a sujidade que a mesma forçou a “desligar-se” das paredes da tubagem. Outras opções são adoptadas sempre que se verifica que tais processos não são suficientes para limpar convenientemente as tubagens.

Manter as tubagens limpas é uma tarefa muito árdua para o Município de Cambridge quando o mesmo é responsável por mais de 410 quilómetros de tubos.

Comentário: Alguém me consegue informar qual o Município que procede regularmente à limpeza das tubagens de distribuição de água potável?

Pergunta: Tenho observado algumas equipas de trabalho limpando as tubagens e a água que sai nas descargas que fazem apresenta-se muito suja. Como é que se pode garantir que a água é potável se os tubos se encontram tão sujos?

Resposta: A maioria dos tubos possui uma fina película incrustada no interior das suas paredes, composta de sedimentos e micróbios inofensivos. Experiências realizadas têm mostrado que estas películas não provocam qualquer problema de saúde pública. A composição dos materiais que estão na origem destes sedimentos é que podem causar alguns problemas, especialmente quando se abrem as torneiras e o seu aspecto não é o melhor e condiciona a sua utilização. Essa é a razão que leva os serviços do Município a procederem regularmente à limpeza das tubagens. Quando tais materiais são removidos através das bocas-de-incêndio o seu aspecto é pior do que realmente é. Se observarem as equipas a realizarem tais trabalhos verificarão que após a saída inicial da água com aspecto muito sujo rapidamente a sua coloração volta ao normal.

Pergunta: De que forma é possível detectar a existência de uma rotura na rede de distribuição de água?

Resposta: Uma rotura pode ser detectada por:
- Detecção visual (água no solo);
- Uma perda de pressão detectada pelos serviços do Município ou pelos consumidores;
- Informação do público;
- Inspecções anuais na detecção de eventuais roturas a cargo dos serviços do Município.

Quando existe a suspeita de uma rotura, o seu local preciso é determinado pelos funcionários afectos à sua reparação. Equipamentos sensitivos acústicos permitem determinar com rigor a sua localização, ao detectarem os sons produzidos pela rotura no subsolo.

A reparação da rotura é importante porque o desperdício da água promove custos quer ao distribuidor quer ao consumidor. O distribuidor ao não ser compensado pelo desperdício da água, pode no futuro passar tais custos para o consumidor. A percentagem média de água que é desperdiçada ronda os 12 a 15%, embora a maioria dos distribuidores pretenda manter tais perdas nos 10%.

Qualquer rotura que ocorra na rede depois de passar pelo contador do consumidor deve de ser reparada à responsabilidade do titular do contador. A pronta reparação só carrega benefícios ao consumidor porque quanto mais água se desperdiçar durante a rotura maior será a factura a pagar.

Comentário: Há 20 anos atrás quando era inspector de uma urbanização de 220 fogos, por cima da geratriz superior da tubagem era colocado um arame que permitia localizar, com recurso a um detector de metais, a localização precisa da tubagem localizada muitas vezes a 2 e 3 metros de profundidade. Para os que desconhecem como se localiza uma rotura cá pelas nossas bandas poderei dizer que muitas vezes é às apalpadelas. A sorte é que a tubagem muitas vezes está a uma profundidade inferior a 1,20 metros. Quanto à responsabilidade pelo pagamento das roturas na tubagem localizada após os contadores, deixo para outros tais comentários.

Pergunta: A reparação de uma rotura é um trabalho sujo. Como é que fica o interior da tubagem depois do trabalho efectuado?

Resposta: Depois do trabalho feito a tubagem é cheia de água contendo uma grande quantidade de cloro. Mantendo tal água dentro da tubagem permite eliminar todos os germes que se depositaram no seu interior.

E o processo de limpeza não termina aqui. O passo seguinte é como remover toda esta água com tão grande quantidade de cloro. Um elemento químico deve ser adicionado o qual, reagindo com o cloro o elimina antes de se proceder à operação de descarga através das bocas-de-incêndio. A descarga desta água só poderá ser efectuada em locais onde não produza quaisquer efeitos nocivos ao ambiente. Só depois de se efectuarem testes que permitam saber da inexistência de bactérias nocivas à saúde pública é que se procede à ligação à rede de distribuição para posterior utilização dos consumidores.

Comentário: Que me dizem à forma como as nossas reparações são feitas em que são as nossas torneiras, máquinas de lavar, esquentador... é que funcionam para limpeza das condutas?

Pergunta: Quais são as actividades domésticas em que consumo mais água?

Resposta: As descargas do autoclismo são de longe os dispositivos de utilização que gastam mais água. A maioria das bacias de retrete gasta entre 15 a 23 litros de água em cada descarga. Em média uma máquina de lavar louça com a carga máxima de louça gasta 50 % da água gasta na mesma lavagem de louça caso seja feita de uma forma manual.

Sem contar com a água utilizada nos jardins e lavagens exteriores a percentagem de água gasta por um agregado familiar composto por 4 pessoas é a seguinte:
- Descargas de autoclismo – 40%
- Banheira e chuveiro – 32%
- Lavatórios e bidés – 3%
- Lavagem da roupa – 14%
- Lavagem da louça – 6%
- Para cozinhar e beber – 5%

Desde 1996 que a Província do Ontário regulamentou que a capacidade dos autoclismos atingisse o máximo de 6 litros de água por descarga. Para o efeito legislou que nas novas construções fosse adoptada tal medida enquanto que para as construções existentes anteriores àquela data incentivos financeiros fossem colocados à disposição de todos aqueles que pretendessem substituir os seus velhos autoclismos pelos novos certificados.

Comentário: E tudo isto se passa no País que ocupa o 1º lugar no ranking no que concerne à existência de maiores reservas de água doce do mundo e pretende implementar medidas que restrinjam os gastos desnecessários de água.

(No próximo artigo: Cambridge 5 - As análises da água.)

BOAS FESTAS - FELIZ NATAL

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Cambridge 3 - Serviço Público de Águas

Caso não saibam, o Canada é o País que possui as maiores reservas de água doce do Mundo. Mesmo diante de tanta abundância, por parte das autoridades existe uma preocupação permanente não só em a utilizar de uma forma o mais racional possível (combatendo constantemente o desperdício), mas também pugnando pela sua qualidade quer na sua utilização quer na sua rejeição de volta ao ambiente.

O Município de Cambridge não foge a este desígnio. Vai buscar a água ao Grand River, trata-a e distribui-a pela população e indústrias. Depois, recolhe as águas rejeitadas e lançadas nas redes de esgotos domésticos e industriais, trata-a e devolve-a ao Grand River para que outras comunidades a juzante possam optar por semelhante estratégia.

No decurso do meu curso de Engenharia e como complemento às cadeiras de hidráulica e águas e esgotos, tive a oportunidade de visitar nos anos de 1990 e 1991 as estações de tratamento de águas e de esgotos. Se as condições técnicas utilizadas no tratamento das águas e dos esgotos me impressionaram, o que mais admirei foram as condições de segurança e higiene das instalações. Em termos de segurança não era nada fácil entrar-se nas Estações de Tratamento de Água (dificilmente era possível serem alvo de uma acção terrorista que visasse a sabotagem das instalações, ou pior, transformasse a água numa arma mortal) e no que respeita aos níveis de higiene implementados eram os mais altos possíveis (recordo o orgulho manifestado pelo responsável pela estação de tratamento de esgotos de não ser possível encontrar-se uma só mosca no interior da estação).

Pegando nestas recordações do passado, convido-os a acompanharem-me numa visita ao sistema de abastecimento de água do Município de Cambridge.

Rede de distribuição

O Município de Cambridge é responsável pela manutenção de 536 quilómetros de condutas de abastecimento de água, as quais, por sua vez, servem 36.500 ramais domiciliários (que abastecem uma população aproximada de 126.000 residentes) e vários ramais destinados a comércio, serviço e indústrias.

(Se compararmos estes dados com o Município onde resido, o Município do Sardoal é responsável por algumas dezenas de quilómetros de condutas de abastecimento de água, que por sua vez servem aproximadamente 2.000 ramais domiciliários (que abastecem uma população aproximada de 4.000 habitantes e vários (muito poucos) ramais destinados a comércio, serviço e indústrias).

Consumo e Preço da Água

Nos dois últimos anos (2006 e 2007) o consumo de água no Município de Cambridge atingiu os 18 milhões de metros cúbicos de água (17,850 milhões no ano de 2006 e 17,957 milhões no ano de 2007).
A factura mensal apresentada pelo Município de Cambridge aos consumidores de água e tendo por base ramais domiciliários com um diâmetro inferior ou igual a 25 mm (é o diâmetro comum nos nossos ramais) e em vigor desde 1 de Abril de 2008, apresenta os seguintes custos: 3,328 € (taxa mensal fixa de água) + 2,011 € (taxa mensal fixa de esgotos) + 1,282 € por metro cúbico de água consumida (sendo 0,639 € devidos pela taxa da água e 0,643 € pela taxa dos esgotos).

(Sobre o Município do Sardoal é possível adiantar o seguinte: - Desconheço o volume total de água consumido pelo Município do Sardoal nos últimos anos de 2006 e 2007 (face às características próprias dos sistemas de abastecimento de água, acredito que tal valor não é conhecido por quem quer que seja). Quanto ao preço da água na factura mensal depende do seu consumo mensal: de 1 a 5 m³ (0,40€/m³); de 6 a 15 m³ (0,50€/m³); de 16 a 30 m³ (0,85€/m³); de 31 a 50 m³ (1,35€/m³); de 51 a 100 m³ (2,00€/m³) e mais de 100 m³ (3,50€/m³).

Comentários interessantes

- O Município do Sardoal não cobra qualquer taxa pelo tratamento dos esgotos.

- Se residisse em Cambridge, em vez de pagar 3,00€ pelo consumo de água que o Município do Sardoal me cobrou no passado dia 20 de Novembro, teria de pagar 17,84 € pelos 7 m³ de água que consumi no último mês.

- Arrepio-me só de pensar no valor que a minha factura da água vai apresentar quando a Águas do Centro S.A. tomar conta da gestão total da água no meu Município. Se só para tratar a água e os esgotos a empresa, no contrato que a Autarquia aprovou no ano de 2006, projectava cobrar 1,0282 €/m³ de água consumida (0,4968 € relativo ao tratamento de água e 0,5314 € relativo ao tratamento dos esgotos) qual será o valor da factura quando a estes preços se adicionar a taxa relativa à distribuição da água? (Se a água tiver qualidade que dispense a compra de água alternativa, ainda vá… Mas se tiver de continuar a comprar água, como será?). Se a Adesão é irreversível, que se corrijam os erros que a mesma encerra!

(No próximo artigo: as análises da água e as informações à população)

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Cambridge -2 - A responsabilidade dos eleitos

Hoje, e antes de prosseguir viagem pelas longínquas paragens Canadianas convido-os a responderem a três perguntas:

1ª Pergunta: Quando somos convidados a participar nas eleições para a Assembleia da República alguma vez nos preocupamos sobre quem é que o nosso voto poderá, na prática, eleger, ou restringimos a nossa vontade a um partido e ao seu líder?

2ª Pergunta: Porque os Deputados da Assembleia da República são eleitos por votos apurados ao nível de cada Distrito, situações há que, por “interesses do Partido”, se elegem deputados sem que estes alguma vez tenham tido o mais remoto conhecimento da realidade desse Distrito, a não ser durante as viagens relâmpagos da sua Campanha. Qual é a percentagem de Portugueses que conhece os nomes dos Deputados eleitos pelo seu Distrito e se lembra do que prometeram para serem eleitos?

3ª Pergunta: Após as eleições que tipo de “relações” temos nós com os nossos eleitos?

Tendo presentes as notícias vindas a público sobre a ausência do plenário da Assembleia da República de um significativo número de Deputados, no passado dia 5 de Dezembro, entendi escrever alguma coisa sobre os eleitos no Canadá.

2008 - Eleições Federais do Canada

(No último semestre de 2008, foi enviado um questionário a todos os candidatos que se apresentavam ao eleitorado na Região de Waterloo, para as eleições de Deputados Federais do Canadá. Esse questionário era composto por 7 questões. A Região de Waterloo é constituída pelos Municípios de Cambridge, Kitchner e Waterloo que juntos perfazem uma população de 507.000 habitantes. Assim, os candidatos a Deputados Federais, eram convidados a responder ao questionário, individualmente Município a Município, não podendo utilizar mais de 200 palavras em cada resposta. Concluídos os questionários, as suas respostas deveriam ser enviadas até ao dia 3 de Outubro. Os candidatos eram ainda avisados que caso alguma resposta registasse mais de 200 palavras, para além desse número as restantes palavras seriam eliminadas e não disponibilizados aos eleitores através da Internet. Vamos ao questionário!)

Nome do Candidato:

Partido Político do Candidato:

1. Quais são as vossas preocupações (sua e do seu Partido) sobre os Municípios – desde as pequenas comunidades rurais até aos grandes centros urbanos – enquanto parceiros nos assuntos federais (nacionais) que possam ter um impacto directo nos governos locais e nos seus cidadãos?

2. Da sua parte e do seu partido, existe algum compromisso em dotar os Municípios de receitas adicionais, sustentáveis e fundos estruturais que promovam o crescimento da economia? Caso haja tal vontade, qual a dimensão dessas receitas e fundos e quando é que as mesmas terão lugar?

3. Da sua parte e do seu partido, que compromissos pretendeis efectuar no que respeita à criação de uma Rede Viária Nacional e que possam dotar os Municípios de receitas suficientes para participar na construção e ampliação dessa Rede? Caso apresenteis tais intenções, qual o papel dos Municípios na participação dessa estratégia e que fundos adicionais serão disponibilizados para que os Municípios possam participar activamente na sua eficácia?

4. Da sua parte e do seu partido que compromissos pretendeis estabelecer com os Municípios na criação de uma Estratégia Nacional de Habitação, concedendo fundos sustentáveis e previsíveis aos Municípios para a sua concretização – incluindo a renovação de fundos para todos os programas habitacionais antes de Março de 2009? Caso haja tais intenções, qual a participação específica do Município na criação de tal estratégia?

5. Da sua parte e do seu partido que compromissos pretendeis estabelecer com os Municípios e que se prendem com as mudanças climatéricas do país e com a necessidade de serem cumpridas os objectivos ambientais da despoluição atmosférica?

6. Da sua parte e do seu partido que compromissos pretendeis estabelecer com os Município que visem o reforço e melhoria das infraestruturas infanto-juvenil por todo o País?

7. Como a nossa economia está em permanente transformação, que medidas concretas, quer vós quer o seu partido, pretendeis implementar e que permitam contribuir para o fortalecimento da economia na nossa região?


Como comentário a este questionário gostaria de vos dizer que já li algumas respostas apresentadas pelos então candidatos e que não houve qualquer complacência para todas as respostas que apresentavam mais de 200 palavras. Positivamente foram eliminadas. O que é engraçado nesta tomada de posição é que as respostas se tornam incongruentes e sem sentido. Se calhar por parte do autor essa era a sua intenção. Particularmente não votaria nessa pessoa.

Com este artigo, para além de pretender mostrar uma outra realidade social, inequivocamente mais avançada que a nossa no que respeita às responsabilidades dos eleitos diante dos eleitores, pretendo também questionar-me para quando a intenção dos nossos deputados serem eleitos por círculos uninominais e, após a sua eleição, estarem disponíveis para receberem os seus eleitores. Uns dirão que tudo isto é ficção porque existem demasiados interesses instalados impossíveis de contrariar. Até um dia! (direi eu).

Se dúvidas existissem quanto à proximidade desse dia, o sentimento de revolta que todos vamos tendo, diante das revelações que os “media” vão fazendo diariamente sobre a promiscuidade entre alguns políticos e alguns “negócios nada claros”, profetizam a chegada para breve desse dia.

Isolados nada valemos. Todos juntos nada nos impede. O que nos falta? Coragem.

Por isso, HAJA CORAGEM!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Cidade de Cambridge - Parte 1

No meu primeiro artigo referi que em Três Bicas teria a oportunidade de partilhar experiências vividas com outras culturas, línguas e modos de vida que formaram o homem que hoje sou.

Convido-os agora a embarcarem comigo noutra viagem rumo a uma cidade que me acolheu entre Setembro de 1987 e Junho de 1991.

Esta viagem será diferente. Será uma viagem ao presente, ainda que em muitos aspectos possa parecer uma viagem ao nosso próprio futuro.

Visitemos então a cidade de Cambridge que se localiza na Província do Ontário e que pertence a esse maravilhoso País que dá pelo nome de Canada.

Com uma população estimada de 125.000 habitantes (estima-se que em 2031 tal número possa atingir os 180.000), a cidade de Cambridge resultou da fusão de três comunidades (Preston, Galt e Hespler) e faz parte da Região de Waterloo.

Se tiverem a possibilidade acedam ao Google Earth (2008) e terão a oportunidade de conhecer a malha desta cidade que para além de encerrar 46.000 fogos habitacionais, possui um tecido empresarial muito interessante (a fábrica da Toyota lidera as empresas com maior número de postos de trabalho a rondar a fasquia dos 4.500 e cerca de 63% das empresas possuem apenas entre 1 a 9 postos de trabalho) e uma diversidade de equipamentos dignos de todo o registo (Excelente parque escolar; 12 Centros Comunitários; 141 Parques e/ou Espaços Desportivos; 14 Campos de Golfe; 7 Ringues de Patinagem no Gelo; 8 Pavilhões Gimnodesportivos, sendo 2 Privados e 6 Públicos; 5 Piscinas, sendo 2 Cobertas e 3 Descobertas; um sem número de Igrejas; etc).

Caso tenham tido a possibilidade de aceder ao Google Earth, convido-os, ainda, a visitarem o apartamento onde residi, junto à Gail Street, que se localizava no rés-do-chão de um bloco habitacional, e que possui as coordenadas 43º 22´ 42,92´´ N e 80º 18´ 46,71´´ W. (Agora que o Inverno está a chegar, quer cá em Portugal quer nesta cidade de Cambridge e quando ouço o entusiasmo das pessoas sobre o efeito que a neve lhes provoca, acreditem que tal entusiasmo não me contagia. Olhem para o parque de estacionamento que se localiza em frente do prédio onde vivi. Pensem na necessidade de entrarem no interior do vosso carro e ele estar coberto por uma camada de neve que o esconde totalmente ou envolvento por uma camada de gelo com muitos milímetros de espessura que nem a chave consegue entrar na fechadura da porta. Acreditem que perderiam rapidamente o entusiasmo pela neve. “É lindo ver cair a neve lá fora, contudo chega a ser desesperante ter de conviver com ela!”)

Por hoje, fico por aqui. “Naveguem” pelas ruas desta cidade que aprendi a gostar!

(Nos próximos artigos abordarei algumas curiosidades sobre o modo como a comunidade interage entre si, como, por exemplo, aquele anúncio público que a Câmara Municipal de Cambridge apresentou no último trimestre de 2007 no qual dava conta á população da intenção de proceder à construção de uma Zona Industrial que iria ocupar uma área de 89 hectares, convidando todos os seus munícipes a conhecerem as propostas do Executivo Camarário e apresentarem as suas próprias sugestões que pudessem melhorar tais propostas.)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A História de um Sonho - Fim

Chega hoje ao fim a História de um Sonho que tenho vindo a partilhar com todos aqueles que me vêm visitando ao longo destas últimas semanas.

Para o efeito, apenas falta acompanharem-me numa visita à Vila do Sardoal, que me acolheu enquanto seu residente em Agosto de 1992 e, por fim, a revelação do próprio sonho que jaz na raiz desta história.

Acompanhem-me numa visita à Vila do Sardoal.

Fazendo uma viagem no tempo, verificamos que dos 1076 habitantes que a Vila tinha no ano de 1960, passaram a 1042 no ano de 1970, depois para 1131 em 1981, depois para 1205 em 1991, depois 1246 para 2001 para, presentemente, se situarem, aproximadamente, entre 1100 e 1200.

Se bem se recordam do que escrevi no meu artigo anterior, quanto ao facto da Vila, nos últimos 50 anos, ter contrariado o fluxo da desertificação que tem ocorrido nos restantes lugares habitados do Município, os números revelados no parágrafo anterior confirmam a minha tese.

Mais referi que, para quem pretende “assentar a sua âncora”, a Vila do Sardoal, enquanto Sede do Município, possui serviços públicos e privados que funcionam como um “engodo” que os restantes lugares não conseguem rivalizar. Para além da existência daqueles serviços, sendo sede do Município, mal parecia se não tivesse uma rede pública de esgotos domésticos, infraestruturas desportivas, lúdicas e culturais, para além de uma malha empresarial que, embora frágil, é capaz de gerar alguns (poucos) postos de trabalho.

E porque a história deste sonho gira em torno da inter-relação entre um individuo e a comunidade onde o mesmo se insere e, ainda, num espaço temporal situado para além das fronteiras da sua casa, escola ou local de trabalho, incidamos a nossa viagem pelos caminhos da Vila que nos possam conduzir àqueles espaços.

Comecemos pelos Parques Infantis. Por incrível que possa parecer a Vila ainda não possui um espaço que possa ser classificado como tal. Porque demora? (Para aqueles dispostos a contrariar esta minha afirmação justificando-se com o Parque Infantil do Ribeiro Barato, aconselho que o visitem. Á entrada da porta e do seu lado direito uma placa designa aquele espaço de Parque Infantil destinado a crianças dos 4 aos 12 anos. Mais se pode ler que é proibida a entrada a animais. Ultrapassem a porta que abre para dentro (não deveria abrir para fora?) e que se encontra permanentemente aberta (não deveria ter uma mola para se manter permanentemente fechada?) e pisem aquele espaço com o chão coberto por carrasca de pinheiro ardido e que remonta à sua inauguração, há alguns anos. Pensem nos animais que por ali demandam e lembrem-se de uma família de javalis que há algumas semanas atrás entendeu visitar a relva junto àquele parque e efectuar “prospecções” naquele espaço. Diante tudo isto, digam-me, se será que se pode chamar àquele espaço de Parque Infantil? Eu creio que não.)

No que respeita a jardins e espaços verdes, o Jardim da Tapada da Torre, o Jardim da Praça Nova (ou das Tílias) e o Parque de Merendas, convidam a um momento de repouso, ainda que, qualquer deles, não deixe de apresentar algumas deficiências. Nos dois primeiros a sombra é uma excelente companhia no Verão. No último, a ausência de sombras convida o seu uso apenas no Inverno. Nos dois primeiros, a inexistência de Instalações Sanitárias públicas condiciona todos aqueles que necessitem de tais instalações. A alternativa é irem ao café mais próximo (a Instalação Sanitária pública em frente do Banco Millenium BCP pode ser opção ao Jardim da Praça Nova, mas… sinceramente… quem é que, depois de a conhecer, não opta preferencialmente pela instalação sanitária de um Café próximo? No Parque de Merendas, a Instalação Sanitária ali existente continua a responder positivamente a todos aqueles que a procuram, pese o facto do seu isolamento estar “à mão” de uns quantos actos de “selvajaria” (neste aspecto há que louvar a acção da Autarquia na manutenção continua da sua limpeza diária, mesmo durante os fins de semana).

No que concerne à existência de espaços de lazer e desportivos, as Piscinas Descoberta e Coberta são um excelente atractivo para quem pretenda ter um contacto directo e privilegiado com o elemento água, quer no Inverno ou no Verão. E se não me custa dar nota alta àquelas infraestruturas, já me custa valorizar as outras opções que restam. Com excepção do ringue que em boa hora a Junta de Freguesia de Sardoal construiu há alguns anos, junto ao Bairro da Santa Casa da Misericórdia, e onde duas balizas de futebol de 5 e uma tabela de basquetebol convidam à prática de alguns exercícios físicos sem se estar condicionado a ter de ultrapassar primeiro uma porta permanentemente fechada (é o que acontece com o ringue do Polidesportivo que leva muitas vezes os nossos jovens a terem de “trepar” por cima da porta para poderem aceder ao mesmo), a Vila do Sardoal quase que parou no tempo desde que foi construído o ringue e o campo de futebol (há quantos anos?). Agora que a Câmara Municipal de Sardoal se presta para colocar um tapete de relva sintética no campo de futebol parece estar de volta a vontade de se voltar a apostar em infraestruturas desportivas. O que, quer eu quer qualquer outro Sardoalense pede é que o entusiasmo não se perca e que, de entre as disponibilidades financeiras da Câmara se encontrem saídas para se dotar os espaços desportivos de condições de uso para todos os intervenientes, quer sejam praticantes ou assistentes. Com este investimento no Piso sintético é dado um passo significativo na melhoria das condições para a prática do futebol. É verdade que o Polidesportivo tem dois balneários/vestiários para os jogadores, uma cabina para os árbitros e umas bancadas para alguma assistência, mas só isto chega? É claro que não. Obrigar o público a sair do Polidesportivo e buscar a barreira dos troncos dos eucaliptos localizados no exterior ou ser obrigado a andar cerca de 200 metros para aceder às instalações sanitárias do Quartel dos Bombeiros, e desse modo poder responder a necessidades fisiológicas que o invada, é no mínimo desconfortável para quem vive neste século. O incómodo que tal situação por vezes promove, muitas vezes, é o bastante para desmotivar todo aquele que tenha vontade de ali se deslocar.

Para terminar a visita aos espaços desportivos uma palavra apenas para aqueles que não existem. Sou capaz de aceitar que a concretização do sonho em se construir um pavilhão gimnodesportivo venha sendo permanentemente adiado por motivos que se prendem com o seu custo não ser compatível com a liquidez financeira do Município. Porém custa-me a aceitar que até hoje ainda não se tenham construído dois campos de ténis, pese o facto de já ouvir tal vontade há anos. Que diabo, quanto custaria à Autarquia a construção de dois campos de ténis em terra batida (ou mesmo em cimento), uma parede de alvenaria e todo este conjunto cercado por rede com 4 a 6 metros de altura? Possivelmente ficaria mais económico que algumas actividades que aqui me dispenso de indicar e cuja existência tem como único propósito a valorização da imagem de alguém.

Quanto à existência de espaços culturais, a Vila está muito bem servida no que respeita a uma sala de espectáculos, mas mal servida no que concerne a espaços que designo de “oficinas de cultura”. Com a construção do Centro Cultural, a Autarquia Sardoalense conseguiu voltar a dinamizar algumas actividades culturais que o Município há muito desconhecia, por dependerem em exclusivo de uma casa de espectáculos e espaços nobres passíveis de serem utilizados por um significativo número de pessoas em simultâneo. Quando se sabe que tais actividades não geram receitas suficientes que permitam cobrir as suas despesas e quando se conhece as fortíssimas limitações financeiras da Autarquia há que aplaudir todos os “ginastas” que têm conseguido aliar a apresentação de bons produtos culturais com recurso a baixos investimentos. Só que se a nota que se pode atribuir à dinâmica do Centro Cultural é francamente positiva, já quanto às “oficinas de cultura”, a nota a atribuir à Autarquia deverá ser negativa. Há quem queira aprender e há quem esteja disposto a ensinar. Para quando espaços condignos para o GETAS e Filarmónica? Ainda pensei que o Antigo Lagar dos Paulinos pudesse responder às necessidades urgentes de, pelo menos, uma destas Associações, mas parece que o entusiasmo se desvaneceu ultimamente. Será que isso tem a ver com outras opções essenciais à afixação de uma cruz em boletins de voto?

Sobre a Vila do Sardoal, muito mais se poderia afirmar sobre as valências que possui ou que deveria possuir. Contudo, no panorama geral do Município, não restará dúvidas a ninguém que as condições de vida que patrocina a todos aqueles que nela residam são infinitamente superiores às condições disponíveis para além das suas fronteiras.

A revelação do Sonho

Para dar por concluída esta minha história apenas resta revelar o sonho. Ao longo destas semanas deixei escapar várias vezes o mesmo. É simples:

Um dos caminhos que pode conduzir à desertificação de um lugar é, para além da ausência de infraestruturas básicas e postos de trabalho, a não existência de condições que permitam aos seus residentes interagir saudavelmente entre si e com os outros.

Não é preciso inventar o que já há muito está inventado. “Que bom seria poder ver disseminado pelo Município do Sardoal, a reprodução daquelas infraestruturas de lazer e desportivas que um pequeno bairro de 25 a 30 famílias localizado no interior de Moçambique já possuía nos longínquos anos de 1960 e 1970, e que ainda hoje, alguns deles ainda são capazes de desafiar a acção do tempo!”

Durante algum tempo mantive viva a possibilidade de poder ser um agente decisor na transformação desse sonho em realidade. Porém, há algumas semanas atrás, quis o destino que essa possibilidade se tenha desvanecido por completo. Hoje, como o sonho ainda permanece, só me resta esperar que outros o materializem.

EU ACREDITO QUE É POSSÍVEL.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

A História de um Sonho - Parte 8

Para terminar o périplo de breves visitas pelas Freguesias do Município do Sardoal falta apenas a Freguesia do Sardoal.

Acompanhem-me, então, pelos caminhos da minha Freguesia, a Freguesia de Sardoal.

Com uma superfície de 33 quilómetros quadrados, a Freguesia de Sardoal possui 12 lugares habitados, incluindo claro está, a Vila com o seu próprio nome.

O processo de desertificação nesta Freguesia não tem sido tão acentuado como nas outras Freguesias do Município, mas não deixa de existir. Dos 3142 habitantes que residiam na Freguesia no ano de 1960, passaram para 2743 no ano de 1970, depois 2368 no ano de 1981, depois 2312 em 1991, depois 2319 em 2001 e, seguramente, menos de 2300 neste ano de 2008. Concorre para o meu juízo de que hoje existem menos de 2300 habitantes na minha Freguesia em virtude de, em 2001, 25% da população já apresentava uma idade superior a 64 anos, contrastando com os 15% que apresentava uma idade inferior a 15 anos. Para além deste pormenor, os eleitores inscritos nesta Freguesia no ano de 2005 eram de 2034 enquanto que os números actualizados a 31 de Dezembro se situam em 2012.

Diante dos números acima apresentados e se tomarmos como referência o ano de 1970 e não o ano de 1960 (ano de referência adoptado para as outras Freguesias) poderá concluir-se que o decréscimo da população não foi significativa e quem dera que tal variação também se tivesse verificado nas outras Freguesias. Tal deveu-se, em exclusivo, ao acréscimo real da população na Vila do Sardoal que, de algum modo, compensou as perdas verificadas nos outros lugares da Freguesia.

É verdade que a localização dos serviços públicos e privados principais são um “engodo” muito forte para todo aquele que não sabe onde assentar a sua âncora. Quem não gosta de viver perto de uma escola que pode garantir aos seus filhos toda a sua formação escolar até à entrada no ensino superior? Quem não gosta de viver perto de um Hospital ou Centro de Saúde? Quem não gosta de viver perto dos serviços públicos (Câmara Municipal, Conservatória, Finanças, etc) ou privados (Bancos, consultórios médicos, serviços especializados, etc? Quem não gosta de viver, o mais perto possível, do seu posto de trabalho ou onde possa desenvolver a sua actividade profissional?

Se juntarmos a tudo isto, a existência de alguns espaços lúdicos, de lazer e desportivos, temos um “cocktail” perfeito para percebermos a razão pela qual a Vila do Sardoal tem “conseguido” conter, o processo de desertificação que se verifica para além das suas fronteiras e no espaço que resta do Município a que pertence.

Nesta visita à minha Freguesia e em busca das condições de vida que são facultadas a todos aqueles que nela habitam, não é difícil de percebermos que existem duas realidades distintas, para além dos limites da Vila do Sardoal: os lugares com pouca ou nenhuma gente jovem e os lugares com alguma gente jovem. Se uma comunidade não apresenta um equilíbrio na sua estrutura etária algo não está bem. Todavia, quando tal desequilíbrio advém da inexistência de jovens que possam compensar a “partida” dos menos jovens já não se poderá afirmar que algo não está bem, para se passar a afirmar que tudo está mal. E tudo está mal porque, diante de tais dados, não será difícil prever-se o fim dessa comunidade num espaço temporal de uma ou duas gerações.

Havendo realidades tão distintas nesta Freguesia julgo que a visita que hoje vos proponho seja feita apenas aos lugares existentes para além dos limites da Vila do Sardoal, deixando a visita a esta para o próximo artigo.

Comecemos então por visitar os lugares com pouca ou nenhuma gente jovem. Para o efeito selecciono São Simão, Entrevinhas e Venda Nova. São Simão, dos 155 habitantes em 1960, restarão menos de 50 nos dias de hoje. Entrevinhas, dos 238 habitantes em 1960, restarão menos de 80 nos dias de hoje. Venda Nova, dos 103 habitantes em 1960, presentemente restarão cerca de 50.

- Será que estas três comunidades têm algo em comum, para além de se encontrarem, umas mais do que outras, num processo de desertificação difícil de conter?
- É claro que têm.

- Qualquer delas não tem um sistema público de recolha de esgotos domésticos, o que condiciona, desde logo, todo aquele que ali queira viver. Só um grande “amor à terra” é capaz de influenciar alguém a viver num local onde não existe tal infraestrutura e ser obrigado, por via disso, a possuir uma Fossa Séptica e estar permanentemente condicionado à disponibilidade dos serviços camarários em a despejar sempre que se encontre cheia. E quando a história mostra que entre a requisição e a execução do serviço podem passar largos meses, é preciso ter-se, mesmo assim, uma grande amor à terra para ali se continuar a viver. Até que um dia, o amor acaba…

- Qualquer delas não tem um espaço para os jovens poderem praticar um desporto, por mais simples que ele seja.

- Em qualquer delas, se os membros dessas comunidades quiserem confraternizar entre si, apenas lhes resta um café, que nem sempre está permanentemente aberto. E como a “cultura da cerveja” e o jogo da “sueca” tradicionalmente é mais cultivada pelos homens, às mulheres, para além de um café e de umas conversas de oportunidade, pouco resta. Isto é, os residentes destes três lugares, se quiserem viver o tempo que o trabalho e as vivências que o lar dispensa, são obrigados a buscar outras paragens e outras comunidades. Para os mais velhos já só resta o caminho de casa para a sua horta (quando ainda podem) e recordar pontualmente o passado, quando a oportunidade se depara, entre vizinhos.

- Qualquer delas possui uma Associação que, ou está moribunda, ou caminha a passos largos para esse estádio. Tirando o “entusiasmo de alguns resistentes” que teimam em lutar contra a adversidade da desertificação e que os leva anualmente a promoverem uma festa de Verão, pouco resta. Não é difícil de prever o desfecho para quando estes, poucos, resistentes já não conseguirem resistir ao cansaço que o associativismo provoca. É que, simplesmente, não têm quem os possa substituir.

Se mais provas do que acabo de afirmar não fossem suficientes para demonstrar o que pode estar subjacente à desertificação destes lugares, a Venda Nova é um claro exemplo. Mesmo com uma excelente inserção na malha viária regional e nacional, uma topografia favorável à construção e um ambiente saudável, muito poucos são aqueles que escolhem tal espaço para viver, pese os loteamentos particulares ali promovidos.

Passando aos lugares que apresentam uma estrutura social mais equilibrada e que se localizam para além dos limites da Vila do Sardoal, a nossa visita passará agora por Andreus e Cabeça das Mós. Em Andreus, dos 551 habitantes que havia em 1960, restarão, aproximadamente, cerca de 300. Em Cabeça das Mós, dos 682 habitantes que ali residiam em 1960, já só restam cerca de 260.

- Estas duas comunidades, de algum modo, conseguiram nos últimos 20 anos conter a velocidade da desertificação, embora qualquer delas (mais Cabeça das Mós) tenham todas as condições para inverter tal desígnio.

- Ambas possuem uma rede pública de esgotos domésticos. (Não lembra ao diabo que a Câmara e Assembleia Municipal de Sardoal, no ano de 2006, tenham aprovado um protocolo com a Empresa Águas do Centro S.A., para que esta assuma a responsabilidade de tratar as águas e esgotos de todo o Concelho, durante os próximos 30 anos, e, naquele, Cabeça das Mós não figurar como possuindo qualquer estação de tratamento de esgotos. E não possuindo tal infraestrutura, Cabeça das Mós ficou fora dos propósitos de investimento da Concessionária, na área do Tratamento de Esgotos Domésticos, durante tal período de tempo. E não lembra ao diabo porque, mesmo depois de eu ter alertado para o facto do protocolo ser omisso quanto à existência das ETAR´s de Cabeça das Mós e Monte Cimeiro/Vale das Onegas, foi entendido que o facto de não figurarem no protocolo, a “Águas do Centro, S.A.” assumiria na mesma tais compromissos. “- Aqui só entre nós, que ninguém nos houve, quando subscrevemos um contrato com alguém, alguma vez poderemos reivindicar o que dele nada consta? Se assim fosse, para que serviriam os contratos? É preciso ter lata!...”)

- Tanto Andreus, como Cabeça das Mós, têm uma Associação e, justiça seja feita, a dinâmica de Cabeça das Mós é francamente superior à de Andreus. O espaço da Internet e a sua biblioteca são alternativas para quem queira confraternizar com outros sem que para isso tenha de ter um copo ou cartas numa das mãos.

Enquanto que em Cabeça das Mós existe um ringue que convida a uma partida de futebol de 5 (quando é que alguém é capaz de dar o grito do Ipiranga denunciando a existência de mais desportos para além do pontapé na bola?) pese apresentar algumas deficiências que há muito requerem correcção, já Andreus tem um pequeno espaço com características de parque infantil mas onde as cautelas dos “pais galinhas” não aconselham muito o seu uso (aquele banco de areia, onde se encontram instalados aqueles quatro aparelhos, deve ser um “paraíso fecal” para os cães e gatos das redondezas. Há quantos anos é que aquela areia não é substituída e porque é que aquele espaço não se encontra vedado e com sombras?).

- “E que mais há nestas duas localidades que possa aguçar a vontade de alguém aí querer assentar a sua âncora?” - Perguntarão.

- “Não há mais nada, para além de uma excelente localização em termos de acessibilidade às redes viárias regionais e nacionais” - responderei.

Que falta fariam a Cabeça das Mós e Andreus aquelas infraestruturas de lazer, culturais e desportivas que aquele bairro de 25 a 30 famílias, localizado no centro de Moçambique, já possuía há cerca de 40 anos e que em artigos anteriores já descrevi!...

(No próximo artigo de “A História de um Sonho” convidá-los-ei para concluírem comigo a visita à Freguesia de Sardoal, desta feita, visitando por fim a Vila do Sardoal)